Farinha integral, resistência e equilíbrio
- Pão do Bento

- há 15 minutos
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Hoje, quando se pensa em fazer um pão, uma pizza, um bolo ou pasteis automaticamente se
pensa em farinha branca e é natural que seja assim. Mas um fato que pouca gente conhece, é que dos 10 mil anos em que a humanidade consome trigo, a farinha branca existe há apenas um século e meio.
Um piscar de olhos na história. Mesmo assim, tempo mais do que suficiente para que a farinha que
existia antes — a farinha integral — fosse praticamente apagada da nossa memória. E o mais curioso. Essa troca não foi escolha do consumidor. Não foi sua escolha peneirar a farinha integral até deixá-la refinadíssima. Até porque esse é um processo sofisticado e complexo, longe do alcance de qualquer cozinha.
Em meados do século XIX, um novo sistema de moagem se impôs — e seu objetivo não era melhorar o processo de fabricação da farinha integral, e sim transformar o trigo em uma commodity
mais lucrativa. O grão passou a ser dividido em vários subprodutos: o farelo, o gérmen de trigo e
farinhas refinadas de diversos tipos.
No entanto, de cara, essa novidade não agradou aos consumidores, nem a classe médica que descreveu com dados científicos os danos que isso traria à saúde da população, mas mesmo assim
não demorou para que se estabelece a supremacia total da farinha branca.
Porém o fio condutor da resistência nunca deixou de existir, mantendo viva a tradicional moagem em moinhos de pedras, não como mera preservação folclórica da memória, mas como o único que processa a verdadeira farinha integral, aquela que mantém tudo que pertence ao grão de trigo, sem subtrações ou adições. Uma opção consciente e bem fundamentada.
O apagão histórico e generalizado da farinha integral induziu a muitos equívocos, enquanto os problemas do uso global da farinha branca só não se destacam, porque seus malefícios são difusos e se confundem com outros aspectos do desequilíbrio nutricional no qual vivemos.
Aliás, desequilíbrio é a palavra chave dos aspectos negativos da farinha branca, que está sobrecarregada com material amiláceo que produz fermentação e flatulência e favorece o desenvolvimento de uma flora intestinal abundante e embaraçosa para a economia digestiva, onerosa para os órgãos gastrointestinais e favorável ao livre desenvolvimento e aumento da virulência de micróbios patogênicos que podem obter acesso ao trato intestinal.
Por outro lado, equilíbrio é o conceito que podemos atribuir à sinergia dos elementos constitutivos da farinha integral: fibras, vitaminas do complexo B, ferro, magnésio. fósforo, zinco, potássio, vitamina E, antixoxidantes e fitoquímicos como lignanas e ácido fenólico, etc. além de um baixo índice glicêmico.
Diante de tantas transformações causadas pelas grandes indústrias de alimentos que desprezam a saúde do consumidor em prol do sucesso financeiro, se alimentar bem se tornou como que um ato de resistência, exigindo do consumidor escolhas cada vez conscientes.




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